Testemunho

“Deixei o meu antigo trabalho para seguir o meu sonho” – Matateu Ubisse

Há um ano, quando conheci o Matateu, tinha acabado de criar a sua empresa – demonstrava-se motivado e com muito entusiasmo. Tínhamos falado de Marketing, das dinâmicas locais e o futuro no sector. Hoje cumprimentam-no onde quer que vá e tem cada vez mais a noção de que as pessoas em Moçambique “vêem publicidade como se estivessem a ver um programa televisivo”.

Fala-nos de ti e da tua trajectória académica

Chamo-me Matateu Mário Ubisse e tenho 25 anos. Comecei por estudar Letras, passei pela Informática e agora trabalho com Publicidade. Na 12.ª classe fiz Letras, não gostava de Matemática. Quando tentei ir a universidade não admiti para as duas para que concorri, e isso foi bom, descubro hoje, porque depois fui estudar Ciências de Computação num instituto médio. Fiz Ciências de Computação e trabalhei durante um ano numa organização chamada Vibrações. Desde essa altura comecei a desenvolver aplicativos, portais, websites, e rastreadores de veículos, na parte electrónica. Depois disso entrei para o ensino superior e fiz Informática de Gestão. Aprendi como aplicar as tecnológicas nas organizações e foi a partir daí que me apaixonei pelo Marketing. Na primeira semana no curso de Informática de Gestão  encontrei disciplinas como Matemática e mudei de curso, fui estudar Recursos Humanos, mas descobri que era um curso muito fácil para mim.

E então o que é que decidiste fazer?

Fui fazer Publicidade mas o meu sonho era trabalhar no sector público. Alguém disse na altura que o Governo não contratava profissionais formados em Publicidade e então voltei a fazer Informática de Gestão, tendo terminado ao fim de quatro anos. Mudei três vezes de curso. Quando terminei o curso criei a minha empresa, que vendia SMS, numa vertente de Marketing, bulk SMS e desenvolvimento de aplicativos.

Quando é que terminaste o curso?

Terminei em 2015 e já trabalhava na Universidade Eduardo Mondlane desde 2013, como gestor de hesp desk, num projecto ligado a rádios comunitárias. Eu ajudava as rádios na utilização de redes sociais para produção e divulgação de conteúdo, manutenção de equipamento informático, e aprendi bastante sobre o mercado de comunicação. Toda essa experiência permitiu-me olhar com mais atenção para a publicidade, onde hoje trabalho.

Encontraste o que andavas à procura em termos profissionais?

O mercado da publicidade foi aquele em que encontrei mais certezas. E já passei por vários, como disse. Não que agora não faça websites, por exemplo, mas faço-os numa perspectiva de uma agência de mídia social, a forma como nós concebemos websites é diferente da forma como o faz um informático. Nós concebemo-los como marca. A base não é “isto é desenvolvido em PHP, MySQL”, para nós é “isto vai aumentar as vendas ou terá impacto desta forma”. Encontrei o lugar de que andava à procura nestes quatro anos. Se não tivesse trabalhado onde trabalhei, com as pessoas com que trabalhar, dificilmente teria encontrado este lugar. A publicidade é o mar onde posso nadar. Sou feliz pelo meu trabalho. É por essa razão que deixei o meu antigo trabalho para seguir o meu sonho, ser publicitário e ter uma agência de publicidade.

Fala-nos da tua primeira experiência de trabalho

É uma história engraçada porque quando nós terminámos o instituto médio queríamos todos defender e eu pertencia ao grupo dos que queriam apresentar algo [ideia de negócio] antes mesmo de apresentar o projecto para a defesa. Acho que por essa razão ainda não defendi o meu instituto médio. Éramos três amigos quando fomos deixar CV em 2010. Eu pedi um estágio, queria aprofundar os meus conhecimentos, mas a empresa aceitou-me e propôs uma contratação no departamento de TI. Essa foi a minha primeira experiência de trabalho, que durou dois anos. Foi muito bom, conheci várias organizações e compreendi o papel das tecnologias de informação e comunicação nas organizações. Uma vez mais, não equipamentos, software, mas como é que as organizações utilizam tecnologias como ferramenta nos seus negócios.

Que conseguimentos destacarias na tua carreira?

A primeira coisa marcante para mim foi ter trabalhado num projecto sediado na Universidade Eduardo Mondlane, denominado CAICC (Centro de Apoio a Informação e Comunicação Comunitária), que trabalha para mais de 100 rádios comunitárias no país. O CAICC era um desafio diário. O nível de produção de ideias, de soluções, é o mais alto que já tive. Ninguém te exige nada – tu é que impões as exigências a ti próprio. A equipa era excepcional. Há uma cultura do “eu como agente de mudança”. Utilizávamos soluções existentes  – o frontlineSMS, o Facebook, o Twitter, o Blog, o Google – para ajudar as rádios comunitárias a disseminarem conteúdos à escala global. Outra ocasião importante foi a recente – publicidade para a Mcel –, que veio confirmar o que um dos grandes criativos em Moçambique, o Tiago Fonseca, diz, que a televisão é o meio mais fácil para vender. Hoje, não importa onde vá, de executivos, em mercados, hospitais, centros de segurança, fronteiras, as pessoas olham para mim e dizem “é o do Facebook, é o do Facebook” e isso mudou a perspectiva que eu tinha sobre a publicidade em Moçambique. As pessoas assistem publicidade como se estivessem a assistir um programa televisivo, quando é bem feita, claro. Foram dois momentos importantes, no CAICC, onde trabalhei com aquela equipa, produzindo resultados, tornou-me nesta pessoa que luta pelo seus sonhos, e trabalhar com a Golo, nesta publicidade, mostrou que a televisão é o melhor meio para publicidade neste momento.

Podes falar desta experiência como personagem numa peça publicitária?

Desde já agradeço à Golo pela oportunidade e pela boa relação que cria com o mercado moçambicano quando se trata de publicidade, porque parece haver uma certa discriminação nas agências de publicidade e choques, as agências são marcas em si, mas eu fui bem recebido embora vindo da crítica, da produção de conteúdos, e tendo uma agência. Eu já fazia vídeos num canal chamado “Mas bem bem”, no YouTube, sou vlogger, faço muitos vídeos engraçados sobre o quotidiano, com o meu telemóvel, e foi aquilo que vendeu essa imagem, não foi uma ideia que surgiu de uma direcção criativa, foi utilizar algo que já está a ser feito por alguém, e optimizar, foi o que a Golo fez. Fiz vídeos que tinham 70 visualizações. Um dos vídeos que fiz para a Mcel tem 20 mil visualizações, isso muda completamente a escala. A Golo já tinha visto o que eu fazia, e eu era actor antes da estar nas televisões, já falava de questões públicas, então foi fácil essa transição, mas foi benéfica porque fui perceber como é o processo de produção de conteúdos comerciais, quais são as limitações, como é que podes falar, o que é que não podes falar, eu sou muito novo no mundo da publicidade, há coisas que aprendi  na produção daqueles spots, são 15, gravados em dois dias. Na minha agência gravamos um spot em dois ou três dias. Neste caso do Facebook foram 15 em dois dias. A dinâmica deste mostrou-me como fazer isso, bem, com qualidade, e entregar valor ao público.

Qual é que achas que será o posicionamento da televisão face ao aparecimento das redes sociais e serviços de streaming como a Netflix?

A questão do conteúdo é primordial. O que vai definir a sobrevivência de uma plataforma, tanto online como as tradicionais, é o conteúdo. A FOX, por exemplo, viu o canal Porta dos Fundos [no YouTube] a mover massas, a tirar audiência até às grandes televisões, e contratou-os para fazerem um seriado na TV, e não lhes inibiu de passar o mesmo conteúdo em formatos online. Acho que haverá um casamento entre dois tipos de mídia. A mídia social não é só produtora de conteúdo, é também um canal. A televisão o mesmo. Nós precisamos de produtoras de conteúdos para alimentar esses dois canais. Se a mídia social não produzir bom conteúdo ela não vai sobreviver. Digo o mesmo sobre a televisão. Existe o que hoje nós chamamos a segunda tela, está a passar uma novela e as minhas irmãs estão a comentar no Twitter “eu não gostei disto”, é um conteúdo que está a ser partilhado. Eu vejo um futuro em que há um casamento entre as duas. As mídias sociais têm uma vantagem – são instantâneas, móveis. Elas ganham nesse aspecto a longo prazo. As manifestações, as questões políticas, apostam muito nas mídias sociais, porque são instantâneos, são virais. Não se pode comentar, por exemplo, num jornal impresso, não se dá like num programa televisivo gravado às 7:00h para ser transmitido às 19:00h mas num post do Facebook há comentários, likes, passamos de uma comunidade de consumidores para o que chamamos prosumers, produtores e consumidores de conteúdo. A base de tudo é bom conteúdo.

O que é que se pode esperar do mercado da publicidade em Moçambique?

Eu acho que o mercado publicitário em Moçambique está a enfrentar uma nova realidade, que ainda não está bem visível para quem está fora do mercado. Nós temos neste momento dois gigantes da publicidade mas as marcas estão a exigir à abertura de mais agências. Há mais demanda e marcas a surgirem cada dia. Há muita oportunidade na publicidade. Os desafios hoje estão mais ligados à criatividade. Durante muito tempo as agências a criarem eram as mesmas mas num futuro muito próximo teremos dificuldade em identificar quem é que fez um determinado trabalho. Teremos vários freelancers, várias agências de mídia social, teremos produtoras de conteúdo, já há uma tendência nesse sentido. Teremos um mercado muito mais aberto e haverá muito investimento de capital mas com uma repartição orçamental diminuta para cada projecto, teremos portanto muita gente a investir mas também muita gente a fazer, então não terás como cobrar biliões para fazer uma campanha publicitária. Isso é bom na perspectiva de haver muita gente a fazer mas os projectos podem sofrer na sua qualidade porque o investimento será pouco. Eu recomendo a toda a gente que queira entrar no mercado de publicidade, que entre, há espaço, muito espaço. Se prestarmos atenção o nosso mercado publicitário só faz publicidade, não há workshops, palestras, prémios , está tudo centralizado nas grandes agências, os próximos dez anos serão decisivos na abertura do mercado. Há um problema que temos visto: as marcas confundem serigrafias com agências de publicidade. A pessoa vai a uma serigrafia e pede criação. A serigrafia não é para isso. É para imprimir, ilustrar. As pessoas têm medo, pensam que agências de publicidade são para a televisão. As agências servem para criar marcas, criar conteúdo, cartões-de-visita. As gráficas põem qualquer fonte, qualquer cor, qualquer tonalidade e já está, e quando essa marca chega a uma agência de publicidade para vender o produto na televisão não tem o impacto esperado, pois os detalhes foram perdidos. É um problema que nós temos. Temos que mudar nos próximos anos. Como? Abrindo agências de mídia social, agências de conteúdo, criando muitos blogs com conteúdo. Há plataformas gratuitas. Este mercado tem muito espaço. Há países com milhares de agências que podem actuar só em Boane, por exemplo, e em Moçambique uma agência actua em todo o país e fora.

Onde é que queres chegar, a nível profissional?

O nosso objectivo é trabalhar com marcas a nível nacional porque achamos que o mercado nacional precisa de mais. As marcas moçambicanas ou globais mas que têm uma forte ligação local. Não queremos ser reprodutores ou tradutores de campanhas. Temos visto campanhas globais que fizeram muito sucesso externamente mas que aqui não têm bons resultados. Nós queremos trabalhar com marcas moçambicanas, criar conteúdo moçambicano, trazer um DNA moçambicano. Nós fizemos alguns estudos para actuar no mercado sul-africano, por exemplo, mas eles estão mais evoluídos. Não que não possamos evoluir mas temos uma grande oportunidade para crescer aqui. Dou um exemplo: uma marca de automóveis montou caixas com automóveis em avenidas moçambicanas e esperava-se que no dia da abertura toda a gente estaria atenta, que aquilo ia mover grandes massas, fotografias, e o que aconteceu? Quando abriram as caixas alguém roubou os espelhos. Em Praga funciona muito bem mas aquilo chegou a Moçambique e roubaram os espelhos. Ninguém esteve na mídia a bater palmas. O que circulou foi que roubaram os espelhos. Quem desenhou essa campanha sabia que existem pessoas no Estrela [mercado na cidade de Maputo] que já sabiam que havia carros naquelas caixas? Que tipo de segurança foi montada? Temos que ver tudo isso como uma oportunidade. Queremos revolucionar o mercado, trazer algo novo. Há muita gente a fazer mais do mesmo. Como uma agência pequena queremos buscar as percepções das barracas, dos chapas, dos comboios, tu vês quando as pessoas saem da Machava, de comboio, elas ficam penduradas cá fora, só para não pagar cinco meticais. Queremos ser gigantes mas não a ponto de as pessoas temerem abordar-nos. A publicidade está elitizada, mas não é uma questão de custos, é a mensagem que é transmitida. Em quantas publicidades vês línguas nacionais? Na África do Sul ouves Zulu numa publicidade onde depois ouves Inglês. Queremos trabalhar com as melhores marcas, mas criando algo que é feito para as pessoas, para todos os públicos, com um sabor local.